Um país abençoado por Deus e amaldiçoado pela corrupção e a omissão pode ressuscitar pela organização e mobilização dos excluídos

Abr 17, 2017

Na última Sexta-feira Santa, o noticiário de uma rede televisiva de João Pessoa noticiou a prisão de uma mulher e um taxista. Segundo o relato do repórter, a mulher, que eu chamo de Maria, tinha furtado um pacote de fraldas numa farmácia. Ela estava sentada no chão da delegacia com as mãos algemadas para trás. O repórter a convidou a levantar-se para dar uma entrevista. Dona de um corpo emagrecido pelo consumo de drogas, Maria contou que vive na rua e não mantem nenhum contato com a família. Tomada pela fome, decidiu furtar o pacote de fraldas com o objetivo de vendê-lo para comprar seu almoço e o leite para o filhinho que vive com ela na rua. Após o furto, encontrou um taxista que, comovido pela situação, aceitou comprar o pacote de fraldas por 10 reais sem se importar da proveniência do produto. O policial que havia efetuado a prisão, evidentemente constrangido, fazia questão de repetir que estava cumprindo a lei. Ela seria enquadrada por furto e o taxista por receptação. Não me atrevo a criticar a polícia nem o comerciante que sofrera o furto. Ambos tinham suas razões para agir daquela forma, mas não posso esconder minha indignação diante do fato e todo seu contexto.


Maria foi algemada e conduzida por causa do furto de um pacote de fraldas. Não sei o que aconteceu na delegacia. Mas não é assim que estão sendo tratados os empresários e os políticos que roubaram bilhões de reais nas últimas décadas.

 

A diferença de Maria, eles não roubaram para matar a fome de comida, mas para saciar sua incontrolável avidez por uma vida luxuosa. Roubaram para fazer falsa propaganda eleitoral, para enfeitar suas caras de pau com joias preciosas, para banquetear às custas dos famintos com vinhos caríssimos, para realizar viagens em hotéis de luxo enquanto os contribuintes não tinham nem sequer o dinheiro para a condução. Saquearam o caixa precarizando os serviços públicos, inclusive aqueles que poderiam ter ajudado Maria a dar um rumo melhor à própria história de vida. A diferença de Maria, sentada no chão de uma delegacia e algemada para trás, os “delatores premiados” que eu prefiro chamar de “delatores interesseiros” estão relatando fatos mesquinhos na maior cara de pau, sentados à mesa, sem algemas, sem serem vigiados por policias armados, devidamente acompanhados por advogados muito bem pagos. Muitos destes corruptos e corruptores várias vezes pronunciaram discursos moralistas e engrossaram o coro para pedir penas mais duras e a redução da idade penal para os adolescentes infratores que, na maioria dos casos, fizeram a besteira de cair na criminalidade pela ausência de políticas públicas. Agora ganham tempo para seus crimes caírem em prescrição, pedem redução de pena e anistia ao caixa 2. Decidiram colaborar não porque arrependidos, mas para se safarem da cadeia. O pior é ter que aguentar a ladainha das mentiras deslavadas dos políticos envolvidos quem não tem a coragem de admitir as evidências. Maria deu uma lição de moral. Não negou nada daquilo que tinha acontecido. Admitiu suas responsabilidades. Enquanto ela, por um pacote de fraldas, arrisca ser trancada num presídio superlotado, corruptos e corruptores que roubaram milhões e indiretamente ocasionaram a morte de pacientes nas filas das unidades de saúde, a exploração de crianças e adolescentes no trabalho infantil para ajudar a sustentar a casa, o empobrecimento de milhões de brasileiros por falta de emprego... terão o direito de cumprir suas penas em luxuosos apartamentos localizados em bairros nobres.

 

A revoltante imagem de Maria na delegacia é uma denúncia contra as inúmeras injustiças que são praticadas no Brasil, não por falta de recursos, mas pelas falcatruas cometidas por alguns empresários e políticos corruptos e, em vários casos, pela omissão e incompetência de quem deveria ter fiscalizado. Mesmo reconhecendo a importância do papel que o Ministério Público está exercendo nesse momento, fica uma angustiante pergunta: onde estavam os órgãos fiscalizadores durante o vazamento do dinheiro público pelo propinoduto da corrupção? Segundo os chefes da quadrilha isso vinha acontecendo há décadas. Será que todos aqueles que tinham o dever de fiscalizar cumpriram seu papel com responsabilidade? A Lava Jato, além e alcançar empresários e políticos, deve apontar outras responsabilidades. Boa parte da verdade está emergindo pela interesseira colaboração dos malfeitores.

 

Mas é bom lembrar que a delação sempre acontece depois que o crime foi cometido e já provocou estragos irreparáveis. É papel das instituições fiscalizadoras prevenir a prática dos crimes. Se essa missão tivesse sido cumprida à risca Maria e muitos outros empobrecidos desse país não estariam correndo o risco de mofar na cadeia ou de apodrecer prematuramente debaixo da terra por falta de políticas públicas.

 

A história dessa pobre mulher de rua e do taxista logo no dia da Sexta-feira Santa revelam a via sacra que milhões de pobres brasileiros percorrem para sobreviverem num país abençoado por Deus e amaldiçoado por aqueles empresários, políticos e membros das instituições que optam pelo caminho da corrupção e/ou da omissão.

 

Mas ainda há esperança. Esta está nas mãos dos pobres que, através da organização e da mobilização, podem ressuscitar o Brasil dessa podridão toda e torná-lo a Terra Sem Males garantidora de vida para todos e todas. Enquanto isso acontecer, que tal reparar o dano devolvendo o dinheiro apreendido não aos cofres públicos mas aos cidadãos e cidadãs brasileiros? De fato, pertence a eles visto que contribuíram e não tiveram o devido retorno em serviços de qualidade. Espero que Maria e seus companheiros de rua sejam os primeiros dessa fila da reparação de dano.

Saverio Paolillo (Pe. Xavier)

Missionário Comboniano, nasceu em Barletta na Itália. No Brasil, iniciou suas atividades em São Paulo e em 1998 foi transferido para a Sera (ES), onde teve fundamental importância na criação da Rede Aica.

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